martes, 5 de mayo de 2015

Gentrificación y literatura (III)

"A cidadezinha" es un párrafo urbano del Colectivo Bu.

"Compré una pequeña ciudad. Luego me apresuré a tranquilizar a toda la gente, diciendo que nadie tendría que mudarse. Íbamos a hacer las cosas con toda calma, de forma gradual. Los habitantes quedaron satisfechos pero un poco desconfiados. Pasé por el centro, donde hay comercio y grandes almacenes, pensando: "unos cuantos cerezos aquí quedarían bien". Continué recorriendo esas avenidas con bonitas casas y pensé: "que ciudad tan agradable, realmente me gusta". Me agradaba tanto que comencé a transformarla despacio. Pedí a algunas personas que desocupasen toda una manzana para poder demoler las viviendas. Alojé a toda aquella gente en el hotel más fino de esta pequeña ciudad, asegurándome de que todos tuvieran una bonita vista. Convertí el solar vacío en un parque, un bello terreno con hierva, con árboles y pequeños lagos. Nada excepcional, intenté no ser muy imaginativo.
Quedé satisfecho con la satisfacción de los habitantes de mi pequeña ciudad. Pero no tenía ninguna idea más, salvo no ser demasiado imaginativo. Entonces volví a hacer más parques y a alojar más gente en el hotel. Con vistas, claro. Ahora toda la pequeña ciudad es un bello y verde parque, lo que me deja tremendamente satisfecho. De las personas no tengo noticias hace bastante tiempo, espero que continúen disfrutando de las vistas."
Cronista del Império Persa, Siglo I a. C.

Portugués
"Comprei uma cidadezinha. Logo me apressei a tranquilizar toda a gente, dizendo que ninguém tinha que se mudar. Íamos fazer as coisas com toda a calma, gradualmente. Os habitantes ficaram satisfeitos e um pouco desconfiados. Passei pelo centro, onde há comércio e armazéns, pensando, umas quantas cerejeiras aqui até ficavam bem. Continuei a percorrer as avenidas com belas casas e pensei, que cidadezinha tão agradável, gosto mesmo dela. Agradava-me tanto que comecei a alterá-la bem devagarinho. Pedi a algumas pessoas que desocupassem todo um quarteirão, para que pudesse demolir-lhes as casas. Alojei toda aquela gente no hotel mais fino da pequena cidade, certificando-me que todos ficavam com uma bela vista. Converti o quarteirão vazio num parque, um belo terreno relvado, pontuado por árvores e pequenos lagos. Tudo muito corriqueiro, tentei não ser nada imaginativo.
Fiquei satisfeito com a satisfação dos moradores da minha cidadezinha. Mas não tinha mais nenhuma ideia, a não ser que não deveria ser demasiado imaginativo. Então voltei a fazer mais parques e a pôr mais gente no hotel. Com vista, claro. Agora toda a cidadezinha é um belo parque verdejante, o que me deixa agradavelmente satisfeitinho. Das pessoas não tenho notícias há já bastante tempo, espero que continuem a desfrutar das vistas". Cronista do Império Persa, Século I a. C.